Quando o sargento Cruz ligou para o meu telefone custei a acreditar. Ele me disse que tinha feito um samba para homenagear o projeto das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) e estava se programando para fazer uma gravação com a bateria da GRES Unidos da Villa Rica, junto com moradores da Ladeira dos Tabajaras. Pedi para ouvir um pouquinho da letra. Quando ele começou a cantar, interrompi. Não precisava ouvir mais. Perguntei quando seria a gravação e disse que estaria lá, sem falta. O samba diz que depois da chegada da UPP, o morro pacificou. E que agora as com unidades têm paz a liberdade. Exatamente isso.

Nada melhor do que alguém que há 21 anos vive essa relação tumultuada entre policiais e moradores de favela para expressar as mudanças. Luiz Carlos Cardoso Cruz, 48 anos de idade, lotado no batalhão de Copacabana. Ele tem nome de compositor. Apaixonado pelo Carnaval, o sargento boa praça já fez diversos sambas, concorreu em muitas escolas e venceu em grande parte delas. No passado, a vitória nunca era comemorada na quadra da escola.

A presença de traficantes incomodava Cruz. Agora com a pacificação, ele inscreveu um samba para concorrer ao enredo de 2011 da Unidos da Villa Rica. Caso vença, vai poder subir o morro tranquilamente para comemorar.

No dia da gravação, chegamos cedo. Cruz ainda estava no batalhão, terminando mais um dia de serviço. Enquanto esperava, conversei um pouco com os integrantes da bateria. Todos moradores da Ladeira dos Tabajaras. Muitos já conheciam o compositor, mas não sabiam que se tratava de um sargento da Polícia Militar. E foram pegos de surpresa. Presidente executivo da escola, Ari Jorge já conhecia o sambista. Para ele, é muito importante o Estado estar dentro da Ladeira dos Tabajaras.

Os PMs estão dentro do samba há muito tempo. Mas agora vai além e eles podem participar do nosso dia-a-dia. Hoje todos estão aqui dentro da comunidade muito à vontade — observou ele.

Quando Cruz chegou, trouxe uma surpresa. Com a farda da corporação foi até difícil reconhecer, mas quando se aproximou ficou mais fácil. Era a tenente Júlia Liers. Oficial séria, ela trabalha no setor de relações públicas do batalhão do Leblon. E nas horas vagas é passista. Júlia inclusive desfilou este ano na Marquês de Sapucaí, como destaque da Porto da Pedra. Amiga do sargento Cruz, tanto de samba quanto na Polícia Militar, Júlia aceitou o convite na hora. No fim, ela ainda revelou que sonha comandar uma UPP.

Acho que esse projeto está contribuindo para uma melhor aceitação da Polícia Militar. Quando a gente poderia imaginar um oficial estar dentro da quadra de um morro que antes era ocupado pelos marginais e confraternizando com a população? O Estado tem que chegar, precisa ocupar, esse território é nosso. Acho que a vida de todos está mudando para melhor — disse ela, antes de sambar no pé.

 

Para puxar o samba, Cruz trouxe mais um companheiro de profissão. Dono de um vozeirão, o também sargento Bamba não fez feio. Cantou o samba sem atravessar a marcação, numa perfeita sintonia com o pessoal da bateria. A letra, o sargento explica que foi feita em um momento de inspiração.

Foi durante uma ronda bancária que Cruz teve a ideia do refrão. Anotou, guardou e terminou em casa o samba da UPP. Agora com o crescimento do projeto ele vai ter que ampliar. Mas garante que não tem problema.- Quando a polícia for ocupando, eu vou aumentando o samba. Será uma junção só. Ainda tem muita coisa para ser feita, mas melhorou muito o relacionamento dos policiais com a comunidade. Hoje todos querem uma UPP. O povo de bom coração, de boa índole adora o projeto — garante ele, que assume ser um compositor da música brasileira.Veja um vídeo com o samba completo:Veja outras fotos do ensaio:Tags: capitão senna, copacabana, júlia Liers, ladeira dos tabajaras, pacificação, porto da pedra, samba, Unidade de Polícia pacificadora, Unidos de Villa Rica, upp

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