Batidão do Funk agita a Ladeira dos TabajarasA preparação para o grande dia começou cedo. Enquanto a televisão da sala transmitia a novela, Tatiana Oliveira, de 25 anos, preparava a saia preta e uma blusa laranja, que combina com o sapato. Depois de anos, era a volta do famoso baile funk na Ladeira dos Tabajaras, o primeiro em uma comunidade com Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). A festa estava marcada para começar às 22h, mas a essa hora Tati ainda se preparava para começar a fazer a maquiagem.

No computador da sala, as amigas entravam em contato pelo MSN e Orkut, todas ansiosas pelo grande dia para os jovens da comunidade. O telefone celular também não parava de tocar, com amigos perguntando se ela estaria no baile.

Tabajaras
Tabajaras

Enquanto terminava de fazer a maquiagem, Luana Oliveira, sobrinha de Tati, entrava no banho. Com 15 anos, seria o primeiro baile funk da menina que, ainda tímida, insistia que não queria dançar. Quando ela terminou de se arrumar, a tia cuidou da maquiagem e aproveitou para lembrar do passado.

Tatiana tinha a mesma idade da menina quando foi pela primeira vez ao baile da Tabajaras, acompanhada da irmã, que agora trabalha como passista na China.

Dez anos se passaram e muita coisa mudou. Agora ela está levando a filha da mesma irmã para a festa. Mas nem tudo é tão simples.No chão da casa, de três quartos, sala e cozinha, está o pequeno Vinicius, seu filho, de 7 anos. Garoto esperto, muito bem educado, ele brincava com os bonecos e carrinhos de uma coleção quando a mãe falou que estava na hora de dormir.

Ele correu para o quarto, colocou o pijama, escovou os dentes e foi para debaixo do edredom. Antes da mãe sair, um beijinho e o pedido para ela não demorar.Tatiana e Luana saem de casa às 10h40m e ligam para as amigas. Como elas ainda não estão prontas, as duas caminham sozinhas para a quadra da Unidos de Villa Rica, escola de samba da Ladeira dos Tabajaras, que fica a alguns metros da vila onde as meninas moram.

Quando chegam, o batidão já está rolando. Tatiana dá um beijo no namorado, que trabalha na portaria do evento e entra junto com a sobrinha. Já são 23h e a quadra ainda está vazia. Quando não tinha regras e ainda era frequentado pelos traficantes de drogas, o baile começava mais tarde e ficava com som nas alturas até as primeiras horas da manhã. Sem estarem acostumados ao novo horário, agora ditado por regras de um acordo feito entre moradores e a Polícia Militar, durante uma reunião na semana anterior, os convidados demoram a chegar.

O baile só começou a encher quando o relógio já marcava 1h. A essa hora, Luana já tinha voltado para casa e Tatiana dançava até o chão, acompanhada das amigas.Enquanto conversava comigo, Luana contou um pouco da história do baile funk na Ladeira dos Tabajaras. Há dez anos, quando ela ainda era adolescente, a festa reunia jovens de diversas comunidades da Zona Sul e moradores do asfalto, a “playboizada”.

Segundo o comandante da unidade pacificadora, capitão Renato Senna, uma festa com regras ditadas pelos traficantes, que tinham a intenção apenas de lucrar com a venda de drogas. O oficial assumiu o comando da UPP há pouco mais de um mês. Na semana passada, ele decidiu ceder aos apelos de vários moradores e convocou uma reunião para decidir sobre a volta ou não do baile funk na comunidade. A decisão foi quase unânime e ficou decidido que o sábado será o dia do baile funk na Tabajaras. Mas ao contrário do que acontecia antigamente, tudo agora terá regra. Os proibidões estão fora da playlist do DJ Risada, que comanda as carrapetas.

As letras indecentes também e a festa agora tem hora para terminar. Quando o relógio marcar 3h, o som é desligado e todos voltam para casa. Para chegar a esse ponto, todos cederam um pouco, moradores, funkeiros e até a polícia.- Eu estou achando bom. Minha mãe sabe que sou eu quem está no comando do som. Imagina se toco alguma coisa indecente e ela ouve alguma letra indecente. Vai brigar comigo. Para quem não tinha nada, uma festa que acaba às 3h está muito bom. Precisamos respeitar também o sono das outras pessoas – explica o DJ Risada, nascido e criado na Ladeira dos Tabaras.

O primeiro baile funk da pacificação contou com nomes de peso no palco, com shows do MC Martinho, que cantou o sucesso História Real, e da dupla Júnior e Leonardo, autores do sucesso Rap das Armas.

Presidente da Associação de Amigos e Profissionais do Funk (Apafunk) e defensor do funk de raiz, o MC Leonardo, era um dos mais felizes com a realização do evento. Antes de cantar, ele disse algumas palavras e defendeu o funk como movimento cultural. Ganhou aplausos da galera que esperava para ouvir sucessos da antiga. Também estavam no evento o secretário de assistência social e direitos humanos, Ricardo Henriques, a secretária de cultura, Adriana Rattes, e o chefe do Comando de Polícia Pacificadora (CPP), coronel Róbson Rodrigues, que prometeu estudar um projeto para levar o funk a outras comunidades pacificadas.

Para contribuir com o bom andamento do evento, policiais da UPP que estavam de plantão controlaram o acesso de carros e motos ao morro. A Ladeira dos Tabajaras, que tem mão dupla, foi usada apenas para subir. A descida era feita para o outro lado, saindo em Botafogo. Dentro da quadra, a organização foi toda dos moradores, com proibição de acesso dos menores, revista pessoal de homens e mulheres na porta e venda de ingressos e bebida. Segundo o próprio capitão Senna, os sábados agora serão de funk na comunidade.

Os organizadores esperam que com a divulgação, o baile volte a ficar cheio e possa reunir no mesmo ambiente moradores das comunidades, o pessoal do asfalto e muitos turistas.

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